- A chuva que aterrorizou Los Porongos
17-04-2017 Los Porongos, Chota, Peru
A Família Agostiniana Recoleta e sua ONGD Haren Alde, sob a coordenação da Comissão de Apostolado Social da Ordem dos Agostinianos Recoletos e de sua rede solidária internacional ARCORES, visitou um dos povoados da missão de Chota que mais sofreram com as enchentes decorrentes do fenômeno El Niño. Toda a Família Agostiniana Recoleta é chamada a colaborar para ajudar as muitas vítimas dessa emergência nacional no Peru.
“Tivemos sorte de que o desabamento foi pela direita e pela esquerda. Se tivesse vindo de frente, nos levava”, diz Nelson, ao comemorar sua sorte, membro de uma das oito famílias que vivem em Los Porongos, dentro do distrito de São João de Licupis, um dos menos povoados da missão dos Agostinianos Recoletos em Chota, Cajamarca, Peru.



El Niño costero” é um fenômeno climático que produz fortes chuvas torrenciais e, recentemente, mostrou sua fúria contra os departamentos de Arequipa, Piura e La Libertad. Chiclayo e Cajamarca, nos quais trabalha a Família Agostiniana Recoleta, receberam também suas úmidas indelicadezas. O pequeno distrito de São João de Licupis, entre os mais pobres, mais isolados e menos habitados da província de Chota, sofreu de maneira especial as consequências.


As noites de terror de 25 e 26 de março

As noites de 25 e 26 de março de 2017 ficarão guardadas na memória dos camponeses de Los Porongos como noites de terror. A chuva, companheira frequente e visitante esperada de todos os marços, pregaria em todos, neste ano, uma peça muito infeliz.

Reina Carrasco o resume numa frase: “Dava medo, parecia que a água caía sobre nós. Estávamos assustados. Não sabíamos o que fazer”. Pode-se fazer ideia do pânico das poucas famílias que habitam naquele casario quando se olham as montanhas escarpadas que resguardam o povoado. Trata-se de gigantes verdes cortados violentamente por agressivas quebradas que marcam impetuosas o seu território.

Para agravar aquela cena de terror, havia a escuridão, ainda maior numa noite em que chove, troveja e relampagueia. O céu serrano, amigo de poetas e sonhadores, converteu-se em inimigo traidor e perigoso.

As chuvas fizeram-se cada vez mais fortes, num ritmo crescente que duraria mais de um mês. Aquelas duas noites foram, entretanto, as mais terríveis de suas vidas.

Ao chegar a Los Porongos, encontramos pouco menos de uma dúzia de casinhas simples de tijolo, cobertas com velhas e oxidadas folhas de zinco. Não é um povoado como qualquer outro: não há praça, nem escola, nem igreja. Abundam os animais domésticos e as aves de galinheiro: perus e frangos andam soltos, como soberanos daquela terra.

O caminho leva diretamente a uma quebrada. Agora está seca, mas apresenta valas profundas e variada recopilação de pedras de todas as cores, formas e dimensões. Indubitavelmente, são os vestígios daquela noite terrível.

Passada a quebrada, e fazendo a curva natural da via, vimos um brioso burro atado a uma casa igual às outras: tijolo, folhas de zinco e portas, algumas de madeira e outras de metal. As portas, como as telhas, também estão oxidadas. Não obstante, o alpendre dessa casa via-se bem protegido por uma barreira de carriços uniformemente atados, ali dispostos para resguardar a intimidade da família.

Ao redor do burro atado, uma turminha de crianças a brincar. Assim que nos viram, interromperam as brincadeiras e ativaram ao máximo a curiosidade. Eram pequeninos e bisbilhoteiros. Talvez já estivessem acostumados com as visitas inesperadas nesses tempos; visitas de gente como nós, que vem tirar fotos, bombardeá-los de perguntas e enchê-los de promessas.


Aqui é Los Porongos?

Boas tardes! Aqui é Los Porongos? - digo, levantando a voz. Uma senhora de olhos vivos e ágeis nos diz: “Achegue-se o senhor!”, em sinal de hospitalidade. Junto a ela, havia outras quatro mulheres jovens que se misturavam com as crianças e um pequeno bezerro amarrado na cerca. Uma delas não para de pentear-se com um enorme pente rosado e nos diz: “Boa tarde. Sim, aqui é Los Porongos. O que procuram?” Sem chegar a responder-lhe, nós é que lhe perguntamos pelos danos causados pelas chuvas e pelo huayco, a avalanche.

De dentro da casa, saiu de repente uma mulher de mais idade, com um telefone celular na mão e nos aponta em direção à quebrada. Parecia a matriarca da família. Enquanto as crianças nos olhavam risonhas e as mulheres se calavam, aproveitei e tirei algumas fotos do lugar e delas mesmas. Parei logo de fotografar, porém, porque em seguida cheguei ao fim das casas.

O povoado é realmente pequeno. Depois, as mulheres e as crianças nos confirmaram com loquacidade os dados que antes coletáramos. Indicaram-nos, com a mão, o caminho de acesso à região do huayco.

Assim que dirigimos nossos passos para a zona do desastre, a mulher mais idosa pôs-se a falar quase aos gritos pelo telefone. Deixamo-las para trás. Seguimos o caminho para cima. A senda mostrava-se desfigurada. Os profundos cortes na terra revelavam algo de espantoso.


O que o huayco levou

Olhamos mais para cima e vimos uma casa pequena, solitária, afastada. A seu redor, pedras e gretas enormes, que supusemos causadas pelo huayco. Acertamos. A trinta metros, saiu ao nosso encontro, de outra casa rodeada por frangos e perus, um senhor vestido de calças marrons e uma camiseta grená.

Cayetano Arcila, já entrado em anos, saudou-nos amavelmente, mastigando um pouco da comida que tinha trazido na boca ao sair. Pensamos que estivesse jantando, pois naquelas paragens se dorme cedo. Havia outras pessoas em sua casa, mais baixa que as outras. Sua cerca era feita também com um pouco de carriço. Cumprimentamo-lo e lhe dissemos o porquê da nossa visita.

Ele descreveu-nos o ocorrido com uma viva emoção. Para acompanhar o relato, abriu exageradamente os olhos e estirou elasticamente as rugas de seu rosto curtido. Finalmente, concluiu seu relato:Nunca vimos uma chuva assim”. E sempre choveu naquela região e nunca estiveram em apuros. Jamais se queixaram pelas chuvas, antes, são vistas como uma bênção.

Cayetano relatou como a parede traseira do edifício que funcionava provisoriamente como escola infantil ficou destruída: “A avalanche de lama, pedras, água e pedaços de pau a derrubou e levou o escasso material didático com que contava a professora para entreter as nove crianças que compareciam todos os dias. Levou tudo, incluindo o mobiliário. Não sobrou nada”.

Quando o huayco desceu do cerro Panza negra, bifurcou-se em dois, assumindo a forma de um ípsilon invertido. Pelo lado esquerdo, arrasou a várzea onde se encontrava o campo de futebol. Depois, continuou pela pendente e levou pela frente o edifício em construção da nova escola infantil Luzeirinhos de amor, local de três ambientes que os moradores de Los Porongos tanto desejavam para suas crianças.

Nelson Salazar pede às autoridades a reconstrução do jardim de infância: “Devolvam essa alegria a nossas crianças. Eles viviam tranquilos, brincando, divertindo-se. Aprendiam o que sua animadora lhes ensinava. Agora, nossas crianças têm os olhos cheios de lágrimas”. Quando o huayco levou a construção pela frente, esta nem sequer estava terminada, porque as autoridades, como sempre, demoraram em providenciar materiais para o teto do prédio.

O huayco prosseguiu em sua corrida veloz, arrancou a parede do local provisório da escola infantil e, finalmente, desapareceu quebrada abaixo.

Enquanto tirava fotos, a conversa animava-se, somando-se ao grupo Reina, esposa de Cayetano, que, emocionada, nos oferece laranjas e um tapete para sentar-nos. As pessoas daquela parte do Peru sempre são generosas. Está no sangue. Dão até o que não têm.

Diz que, por temor, os moradores de Los Porongos se juntaram para dormir em duas casas durante aquela noite e nas seguintes: “A chuva retumbava, os trovões e os relâmpagos nos assustavam. As chuvas eram de noite. E parecia que vinham para cá”, fala-nos ao apontar a sua casa.

Os perus não paravam de gritar. O macho não deixava de alardear nem de vigiar suas fêmeas. Acompanhados por aquelas boas pessoas, decidimos chegar mais perto dos destroços do huayco: um enorme depósito de pedras, arbustos e troncos partidos acumulados no lugar que, noutro dia, tinha sido um campo de futebol.

Ressentidos pela maldade da natureza com aqueles bons camponeses, dirigimos o olhar para os centímetros de parede que restaram do desejado jardim de infância. Ainda restam os alicerces e uns quantos tijolos. Por cima, num galho da árvore que se ergue ao lado do que fora a construção, havia um ninho de chilala (uma espécie de joão-de-barro da região do Pacífico), a que os paisanos daquelas terras chegaram até a dedicar uma canção popular.

Esse pássaro constrói o próprio ninho de barro, uma verdadeira joia da arquitetura animal. O ninho continua inteiro, como que a ironizar a obra de barro do homem, que acabou destruída pela mãe natureza. E pensamos na urgente reconstrução da escola infantil, para que as crianças de Los Porongos possam sorrir outra vez.


Colabore com a Família Agostiniana Recoleta nesta emergência

Na Espanha, pode-se colaborar diretamente com esta emergência através da conta de emergências da ONGD Haren Alde: ES57 0075 0241 4406 0086 0510.

No Brasil, a conta para apoiar as vítimas das enchentes está na Caixa Econômica Federal (banco 104), agência 0218, conta-corrente 2184-9, operação 003.

Nos outros países, pode-se colaborar através de qualquer comunidade próxima da Família Agostiniana Recoleta.

© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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