- “Temos que derrubar a parede umedecida porque a casa pode cair e soterrar minha mãe e nossas crianças”
28-04-2017 Chiclayo, Peru
Chiclayo é um dos departamentos peruanos afetados pelo fenômeno climático “Niño Costero”, que deixou quase 30.000 vítimas na região além de outros 60.000 afetados de diferentes maneiras. Quase 5.000 lares vieram abaixo e 12.000 são considerados inabitáveis numa cidade em que os Agostinianos Recoletos trabalham desde 1967, na Paróquia da Consolação.
A Família Agostiniana Recoleta, através da Comissão de Apostolado Social da Ordem dos Agostinianos Recoletos e da rede solidária ARCORES, e com a ajuda técnica da ONGD agostiniana recoleta Haren Alde, visitou Chiclayo para avaliar possíveis ações futuras e conhecer em primeira mão as consequências e as vítimas das enchentes causadas pelo fenômeno El Niño durante o primeiro trimestre de 2017.

A poucas ruas de distância do centro de Chiclayo, encontra-se o Passeio das Musas, lugar bastante conhecido e, provavelmente, um dos mais fotografados daquela cidade do norte do Peru, devido ao contraste entre edifícios de um branco refulgente com suas esculturas helênicas e os coloridos jardins que compõem o passeio, ao longo dos quais ditas edificações estão espalhadas.

Jhoin Tarrillo, um jovem que estuda na cidade, fala a respeito: “Este local é emblemático. Para os que vêm de outros lugares, é obrigatório visitá-lo. Aqui se reúnem jovens para patinar e cantar rap”. As esculturas distribuem-se de tal forma que cada musa tem seu próprio espaço e seus enamorados prediletos. “Polímnia, a criadora da poesia sagrada; Melpômene, a musa da tragédia; Terpsícore, a do canto coral e da dança; Erato, que presidia a poesia lírica e erótica; Clio representa a história; Calíope, a poesia épica e a eloquência; Tália é a criadora da comédia; Urânia, a musa da astronomia e Euterpe, a que tocava a flauta, era a da música”.

Chiclayo, no entanto, não é uma cidade como as gregas. Sua organização econômica, social e política fá-la bem diferente das idealizadas póleis. É, antes, uma cidade de contrastes, especialmente marcada pelas injustiças sociais, bem como pelos escândalos de corrupção e de malversação de recursos. Um ex-prefeito, Roberto Torres, cumpre pena de prisão.

Os moradores da cidade queixam-se da insegurança; dos roubos e dos assaltos, que fazem parte de sua vida cotidiana. O mesmo ocorre com a sujeira das ruas, o lixo acumulado, os esgotos colapsados, os bueiros obstruídos por detritos, a desordem da frota de veículos, a poluição ambiental e sonora, o crescimento desordenado de invasões, entre outras coisas.

Em recente enquete, o Centro de Investigações Sociais para a Paz e o Desenvolvimento publicou que 85% dos 580 moradores consultados foram vítimas de assaltos com violência física, através do chamado cogoteo, e 15% sob a ameaça de arma de fogo.

Alguns metros à frente do Passeio das Musas, começam os bairros de moradias precárias, povoados por famílias que sofrem de pobreza extrema, chamados aqui de “povoados novos”, com nomes tais como Buenos Aires, San Francisco ou Natividad, em que são bem patentes na carne das pessoas inúmeros dramas humanos de quem vive enredado no infortúnio.

Ali mesmo há um canal de águas negras que separa o bairro de classe média alta, Santa Victória, desses bairros quase favelados, do outro lado da Avenida Garcilaso de la Vega. Durante as noites em que se deram as chuvas, o canal inundou ambos os lados. Pareceria que a água enraivecida não discriminou a condição econômica dos vizinhos antagônicos.




“El Niño” sujou as musas

Os chiclayanos jamais pensaram que choveria assim em sua cidade, como diz uma moradora: “Nunca choveu assim, e olhe a idade que eu tenho. Jamais vi uma coisa assim”. Na noite de 12 de março, foram oito horas sem parar, mas essa foi tão somente a primeira das três chuvas que deixaram a cidade irreconhecível, como se fosse uma lagoa de detritos.

O bairro de classe média alta, Santa Victória, em que está o Passeio das Musas, também ficou inundado. As esculturas pareciam afogar-se num épico mar de lodo e lixo flutuante. “Quando a chuva começou, a casa começou a encher-se d’água. A água filtrava-se pelo teto. Sentia que tudo vinha abaixo”, conta Ana Locone, outra moradora.

Chiclayo não estava preparada para resistir a três dias seguidos de dilúvio. A cidade é construída sobre esplanadas de areia, e cresceu sem planificação ao ritmo da imigração rural. A maioria de seus habitantes é formada por descendentes de imigrantes oriundos de Cajamarca.

No primeiro dia, o sistema de drenagem já entrou em colapso. No segundo dia, o prefeito, David Cornejo, deu a voz de alarme: “Vivemos um drama. O governo central comprometeu-se a enviar-nos 120 motobombas de alta capacidade, mas já passaram dois dias desde que se decretou a emergência e não recebemos nada”. O ambiente era tenso. Jamais se vira a cidade das Musas em tamanho aperto. O terceiro setor, aí incluída a Cáritas e outras instituições católicas, convocava o país todo a ajudar os chiclayanos.


A tragédia dos menos favorecidos

Por trás da Avenida Garcilaso de la Vega, como numa gigantesca ilha, rodeados de centros comerciais e lojas de marcas famosas, encontram-se as três “povoações recentes”. As construções de tijolo, compensado, madeira, zinco e qualquer outra coisa que sirva, resguardam a pouca intimidade das famílias. Dessas moradias, na realidade, só as fachadas foram construídas: por dentro, apenas se veem uns quantos cubículos divididos com madeira, folhas de zinco ou tijolo.

O chão é de terra e, nalguns casos, de cimento rústico. Todo o resto é vazio. Wilson é morador dali: “Quando a chuva vem, tudo fica inundado porque só as fachadas são de material nobre. As divisórias são de compensado e papelão. A água destrói tudo e só as folhas de zinco aguentam. As casas não têm paredes a seu redor”.

Essa parte da cidade é uma baixada, e a maioria das famílias conserva muitos utensílios que já não servem para nada e se acumulam em seus quintais, guardados como tesouros, como se isso lhes desse segurança. Maria Gonzales abriu-nos a porta de sua casa em Natividad, ainda com os vestígios da enchente, várias semanas depois do ocorrido.

Ainda há umidade e água no chão. Os poucos bens de algum valor que ela tem se encontravam levantados, como se de um naufrágio tivessem sido arrebatados. Ela mora com seu filho e seus dois netos: “Minha casa estava cheia d’água. Quando veio a enchente, estávamos cozinhando. A primeira coisa que fiz foi sair com meus filhos. Saí com o que pude. Depois, não queria voltar para minha casa. Tinha medo. Mas, o que podia fazer?”.

Esse medo extremo foi sentido por milhares de moradores. Alguns metros mais à frente, Fidel Revilla, de 72 anos e diabético, diz que passou a noite da enchente em claro: “Passei a noite puxando água; mas, vendo que a chuva continuava, eu despejava água e a água do sistema de drenagem voltava de fora, deixei, então, de fazer isso e fui para uma casa em frente. Os moradores deram-nos um cobertor para abrigar-nos”.

A enchente durou mais de três dias, enquanto as autoridades tentavam conseguir motobombas para puxar a água de casas e ruas. O problema era complexo porque nada estava preparado para uma emergência como aquela. Os próprios moradores tomaram a iniciativa e alugaram motobombas para limpar as casas e as vias públicas. O único que receberam como ajuda oficial foram colchonetes e algumas pranchas de compensado. São conscientes de que seus governantes não fizeram muito por eles.

Lucila, de 86 anos, vive com seu sobrinho, que é também seu afilhado, na Rua Nazaré: “Minha casa ficou inundada por 24 horas. Eu estava dormindo quando veio a água. Meu sobrinho levou-me para a casa da vizinha, no segundo andar. Aí fiquei três dias, até que tiraram a água. Os vizinhos que têm segundo andar salvaram um pouco de coisas. A pior parte sobrou para nós, que só temos piso térreo. As casas não ficaram inundadas pelas chuvas, mas pelos sistemas de drenagem que colapsaram”.

Muitos perderam tudo. Ana Locone só resgatou metade de seus bens: “Por volta das dez da noite, a primeira coisa que fizemos foi tirar minhas filhas e minhas coisas e levar tudo para a casa de minha sogra, e fiquei esperando o meu esposo que chegou do trabalho à meia-noite. Na primeira chuva, caíram as paredes internas e, na segunda, a casa toda desmoronou. Fiquei triste. Realmente, fiquei sem chão”. A casa agora está sem condições de habitabilidade.

Ao lado dos destroços, acham-se os restos da casa do vizinho, Jorge Gamarra, que se levanta bem cedo para vender jornais. Não obstante, Jorge tem que continuar morando entre um pedaço de parede e algumas folhas de zinco que ainda estão de pé.

Todos esses dramas e milhares de histórias falam de pobreza e de injustiça, de dor e de vulnerabilidade. Histórias que animam a fazer algo por outros que só têm a própria pobreza como realidade segura. Aquela pobreza que as enchentes trouxeram a lume. Aquela pobreza e aquela injustiça que revelaram mais uma vez o abandono em que se vive, como Juliana recorda, o contar as ajudas recebidas até o momento: “Só nos deram colchonetes, seis garrafas d’água, dois quilos de arroz e zinco. Mas isso não é nada. Temos que derrubar a parede umedecida porque a casa pode cair e soterrar minha mãe e nossas crianças”.


COLABORE COM A FAMÍLIA AGOSTINIANA RECOLETA NESTA EMERGÊNCIA

Na Espanha, pode-se colaborar diretamente com esta emergência através da conta de emergências da ONGD Haren Alde: ES57 0075 0241 4406 0086 0510.

No Brasil, a conta para apoiar as vítimas das enchentes está na Caixa Econômica Federal (banco 104), agência 0218, conta-corrente 2184-9, operação 003.

Nos outros países, pode-se colaborar através de qualquer comunidade próxima da Família Agostiniana Recoleta.

© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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