- Agostinianos Recoletos na Venezuela: “Pede-se que sejamos homens de esperança, cheios de fé e de amor. Rezem para que encontremos caminhos pacíficos e democráticos”
10-07-2017 Caracas, Venezuela
No último dia 3 de julho, os vigários provinciais Frei José Gabriel Rodríguez Puentes (Província de Santo Tomás de Vilanova) e Frei Eddy Omar Polo Ángeles (Província de São José), através da secretaria geral, enviaram a presente mensagem sobre a situação da Venezuela e a visão da Família Agostiniana Recoleta em circunstâncias tão difíceis. Transmitimos integralmente as suas palavras (os trechos em negrito e em cursivo são da nossa edição).
Queridos irmãos:

Nós, religiosos agostinianos recoletos da Venezuela, tomamos a iniciativa de dirigir-nos a toda a nossa amada família agostiniana recoleta (religiosos, religiosas contemplativas, religiosas de vida ativa, fraternidades seculares, Jovens Agostinianos Recoletos (JAR) e demais irmãos que partilham do nosso carisma nos diversos ministérios e apostolados pelo mundo) a fim de expressar a todos, de alguma forma, a realidade que nos desafia e poder, assim, compartilhar com vocês, numa só alma e num só coração dirigidos a Deus, as dores e as esperanças do nosso povo.

A Venezuela vem vivendo uma grave crise há muito tempo. O que começou como um clima político polarizado e hostil chegou ao nível de uma profunda crise econômica e social causada pela radicalização do processo revolucionário, que reduziu a institucionalidade do país às diretrizes do partido do governo com um único fim: perpetuar-se no poder.

Segundo as palavras dos nossos Bispos: “a crise que vem golpeando a Venezuela agudizou-se” (Conferência Episcopal Venezuelana, Exortação Pastoral de 17 de maio de 2017). Por esta razão, há 95 dias, cidadãos venezuelanos, em diversas regiões do país, têm saído às ruas para manifestar seu descontentamento com a situação que vivemos hoje:

● A dificuldade para adquirir os alimentos básicos e medicamentos continua. Isso é fator para que aumente a desnutrição infantil, para que famílias inteiras procurem algo em meio ao lixo para saciar a fome. Também é alarmante a cifra de pessoas que morrem por falta de remédios.

● O empobrecimento do nosso povo foi escandaloso. Uma inflação galopante, até a casa dos três dígitos, devora o pouco que qualquer trabalhador honesto pode receber como salário.

● As cifras de pessoas (jovens em sua maioria) que emigram do país são alarmantes.

● A falta de informação verídica é escandalosa. Os meios de comunicação de sinal aberto ou foram comprados pelo regime, ou são pressionados com a possibilidade da não renovação das concessões que lhes permitem operar. Isso se traduz num ecossistema informativo censurado, que torna invisível a agenda pública dos cidadãos ou a aborda de forma parcializada.

● A repressão por parte das forças de segurança do Estado contra manifestações pacíficas tem recrudescido; sobre a lógica da ordem pública, os agentes de segurança têm ferido e assassinado os cidadãos, no exercício de seus direitos fundamentais.

● Já se contam mais de 90 mortos nas manifestações (de acordo com dados oficiais, por mais que se saiba serem dados manipulados a fim de criar uma falsa opinião, aos quais se devem somar ainda aquelas pessoas que morreram fora das manifestações). É também elevado o contingente de presos políticos e outros mais privados de liberdade (entre eles, há um jovem das nossas JAR, da cidade de Barquisimeto).

● Uma onda de violência e vandalismo está tomando conta do nosso país, principalmente por causa da impunidade reinante, que permite a grupos paraestatais adeptos do governo (erroneamente chamados “coletivos”) semear o terror entre os que se expressam pacificamente.

● Como corolário de tudo isso, cabe destacar o fato de que o povo começa a fazer justiça com as próprias mãos. É um fato lamentável, que mostra o estado de desumanização a que chegamos. Um povo que se deixa levar pelo ódio, pela intolerância, pela violência, é um povo condenado à própria destruição.

● A ruptura da ordem constitucional é mais do que evidente. Pessoas que, nalgum momento, foram favoráveis ao governo e que ocuparam (e ocupam) postos de importância, começam a manifestar publicamente sua inconformidade com o que se propõe pelos que hoje detêm o poder na Venezuela.

● As pessoas vão-se enchendo cada vez mais de angústia e frustração.

Isso, e muito mais, evidencia que, na Venezuela, há muito tempo não se respeitam os direitos humanos.

Nós, Agostinianos Recoletos na Venezuela, não somos nem podemos ser indiferentes. É impossível fechar os olhos ante uma realidade que nos golpeia diariamente, que golpeia nossas famílias, nossas crianças, a todo o Povo de Deus com o qual peregrinamos neste vale de lágrimas.

Como consagrados, queremos reiterar nosso profundo desejo de seguir Jesus Cristo pobre, casto e obediente, estando ao lado do nosso povo nestes momentos tão difíceis. Sabemos que não é fácil, mas também sabemos que o Senhor caminha conosco e que nossa esperança está em Sua grande misericórdia.

Não podemos perder nossa visão de homens de fé. Cremos que é o momento de viver nossa revitalização e reestruturação a partir desta realidade tão complexa e desafiante. Por isso, somos chamados a procurar mais o discernimento evangélico no contato e no compromisso afetivo e efetivo com o nosso povo, especialmente com os mais pobres. Queremos dar testemunho de uma comunidade viva e aberta ao que o Senhor nos está a pedir através do sopro do Espírito neste momento crucial que vivemos.

Diante da tentação do ódio e da violência, optamos pela paz e pela solidariedade, respondendo ao pedido do Papa Francisco dirigido a toda a Ordem, a que fôssemos “criadores de comunhão”. Dizia-nos o Papa que quando o Senhor está no centro da nossa vida, tudo é possível; não conta o fracasso nem qualquer outro mal, porque é Ele quem está no centro e nos dirige”. É por esse motivo, e escutando a voz dos nossos Bispos, que reabrimos algumas obras de ajuda social que, em decorrência da crise, tinham sido fechadas.

Em muitos ministérios, estamos dando de comer - não só nós, os religiosos, mas também as nossas religiosas de vida ativa e os leigos - a um número crescente de pessoas que estão passando fome. Fazemos tudo isso confiando na Providência do Senhor e na generosidade das pessoas que, de dentro e/ou de fora do país, continuam contribuindo economicamente. Além disso, aproveitamos a oportunidade para agradecer a generosidade de todos, que tanto bem nos está fazendo nestes momentos de tantas necessidades.

Agradecemos profundamente as palavras que nos dirigiu o nosso Prior geral, Frei Miguel Miró, a todos os frades que nos encontramos na Venezuela. Ele nos convida a “viver com audácia a nossa missão profética de sermos criadores de comunhão, e a continuar acompanhando todos os que sofrem, sem nenhum tipo de exclusão, com gestos visíveis de fraternidade e de reconciliação (protocolo da Cúria geral 101/2017).

Agradecemos as manifestações de solidariedade dos diversos priores provinciais que fizeram eco das nossas angústias e preocupações. Suas mensagens, cartas e exortações foram também motivadoras para a elaboração da presente mensagem que hoje enviamos a todos vocês.

Agradecemos também as diversas manifestações de vizinhança e de oração por parte de muitos irmãos no mundo todo. Saibam que nos enche de muito ânimo e esperança saber que temos irmãos que rezam e sentem conosco. Não nos sentimos sozinhos nem abandonados, mas, pelo contrário, sabemos que sempre somos acompanhados e abraçados por todos vocês.

Finalmente, pedimos-lhes que não deixem de rezar e de pedir a Deus que, como agostinianos recoletos, continuemos a ver toda esta situação com olhos de fé, porque talvez seja isto o que mais se está pedindo de nós: que sejamos homens de esperança, cheios de fé e de amor. Nossa melhor contribuição, a partir da vida cristã, a partir da nossa vida de consagrados, é, possivelmente, a de oferecer espaços para que as pessoas rezem e alimentem sua esperança, de acompanhá-las, orientando-as a que cultivem sua interioridade e sua relação filial com o Pai.

Essa ação deve nascer da nossa própria relação com Jesus e da nossa fidelidade criativa ao carisma agostiniano recoleto. Não podemos descuidar do lado espiritual, não podemos abandonar a oração. Isso é o que nos cabe, ação a partir da oração, e isso tem força. Por isso, renovamos o nosso convite: rezem! Rezem para que encontremos caminhos pacíficos e democráticos para sair desta situação; para que prevaleçam o amor e a unidade por sobre o ódio e a divisão; pela reconstrução deste país, através da reconciliação e do perdão; para que possamos ser, a partir do nosso carisma, testemunhas fiéis da alegria do Evangelho. Rezem como sinal de nossa comunhão e fraternidade.

Que Maria Mãe da Consolação e Senhora de Coromoto acompanhe sempre e proteja de todo mal e perigo este seu amado povo da Venezuela.

Caracas, 3 de julho de 2017.

Frei José Gabriel Rodríguez Puentes
Província de Santo Tomás de Vilanova
Agostinianos Recoletos

Frei Eddy Omar Polo Ángeles
Província de São José
Agostinianos Recoleto

© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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