- As armas do Lar Santa Mônica contra a violência
12-07-2017 Fortaleza, CE
O Lar Santa Mônica, dos Agostinianos Recoletos em Fortaleza, constitui-se como espaço de paz e de segurança para residentes que, de uma forma ou de outra, sofreram em todos os casos violência, quer física, quer psicológica. A estreita relação da sociedade brasileira com a violência exibe cifras que assustam e que passamos a analisar.
O Lar Santa Mônica, dos Agostinianos Recoletos em Fortaleza (Ceará, Brasil), oferece um espaço de segurança, de paz e de cura de feridas físicas e psíquicas a meninas e adolescentes que sofreram violências de diversos tipos, desde a sexual até a psicológica, desde o abandono até a falta absoluta de amor (que é uma grave violência), por parte de seu entorno mais imediato.

O Lar não só trabalha, no seu extenso projeto social, com as próprias vítimas, mas também, através da ação dos assistentes sociais e psicólogos, com os entornos imediatos, onde se produziram aquelas agressões. Isso se faz necessário para que se possa conhecer de antemão se, uma vez que a menina ou adolescente se achar preparada para uma nova vida, aquele ambiente vai poder respeitá-la e cuidar dela como não fez antes.

A pergunta de fundo é: por que a violência se instalou na sociedade brasileira? A violência está por demais presente nas ruas, nas casas, nas escolas, nos centros de trabalho e nas áreas de lazer. A imprensa divulgou recentemente dados realmente aterradores: a cada ano, há 59.000 assassinatos no Brasil, e essa é apenas uma das muitas violências existentes. Muito poucos podem dizer que conhecem um brasileiro que não tenha sido assaltado.

É certo que os próprios agressores são os principais responsáveis por cada ato de violência cometido; mas, vale a pena uma reflexão, principalmente para os que se dedicam a procurar soluções, a acolher vítimas ou a tentar melhorar a situação dentro de uma rede de pessoas que querem o bem.

Não pode ficar despercebido que a desigualdade, a injustiça, a impunidade, a falta de oportunidades de trabalho ou educativas, o abandono social de setores completos do país, a falta de estruturas e de recursos em saúde ou em educação, são também fatores-chave nesta generalização da violência.

A sociedade brasileira, com seus problemas seculares, está permitindo e até favorecendo a aparição de indivíduos que não sentem o bem comum como bem próprio, com comportamentos autodestruidores, sem esperança de futuro, “sem nada a perder”, porque a mesma sociedade não oferece a todos os mesmos bens sociais, as mesmas oportunidades e os mesmos caminhos de futuro. A pobreza encerra num círculo por demais sufocante e poderoso os que nela nasceram.

Os sistemas “defensivos” criados pela própria sociedade baseiam-se na reclusão, na perda de liberdade, na militarização das forças da ordem e no endurecimento das leis; e há ainda outro meio mais violento e cada vez mais comum, o linchamento social.

“Só com mais escolas de qualidade, mais postos de saúde e hospitais com recursos e profissionais, com mais cultura na rua, mais bibliotecas, mais teatros e cinemas abertos, mais espaços de desporto e mais contato com a natureza, conseguiremos que o Brasil deixe de estar em guerra permanente”, diz o agostiniano recoleto Frei José Alberto Moreno, diretor do Lar Santa Mônica.

Todos temos em nosso imaginário comum o modelo de lugar violento, em que a morte impera mais do que a vida, onde as cidades são pura destruição e escombro, vistos na perspectiva de um drone: a Síria.

Pois bem, choca muito saber que, no Brasil, há anualmente mais assassinatos do que na própria Síria, conforme os dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos. Ainda mais, o número de brasileiros assassinados a cada ano (59.000) é mais da metade (62%) do total de mortos dos 50 conflitos armados internacionais reconhecidos atualmente (97.000 mortos em guerras). A média anual de mortos na Síria é de 53.000, 6.000 a menos do que no Brasil. Os escombros vistos do drone enganam...

Em suma, o Brasil parece não querer ficar atrás nessa preocupante tendência mundial de recrudescimento da violência, multiplicação de grupos terroristas, avanço do tráfico de armas, intolerância religiosa ou desigualdade econômica. Desde o fim da Guerra Fria, em 1991, o mundo vai somando, a cada ano, num in crescendo contínuo, os números de mortes violentas não naturais.

No mundo, existem hoje onze guerras, se entendermos por guerras aqueles conflitos em que se registram batalhas com mais de mil baixas humanas. Os países que têm tal característica são o Iêmen, o Iraque, a Nigéria, a Síria, o Afeganistão, a Somália, a Ucrânia, o Paquistão, o Sudão, o Chade e o Sudão do Sul; as Nações Unidas incluem aqui também a guerra contra o narcotráfico no México. O Brasil não está na lista, mas suas vítimas chegam ao mesmo nível numérico.

A Universidade Federal do Ceará (UFC), em sua sede de Fortaleza, tem um Laboratório de Estudos sobre a Violência. Luiz Fábio Paiva trabalha nele e oferece uma análise desoladora sobre a atuação dos poderes públicos com respeito à violência:

“Não há no Brasil ou no Estado do Ceará uma política de segurança e de justiça estruturada de maneira sistemática, com um plano e metas claras, ações que procurem resultados de médio e longo prazo. Na realidade, tudo se inventa e se reinventa a cada dois anos, conforme os pactos eleitoreiros”.

Para Paiva, os profissionais da segurança atuam sem autonomia em relação à política, e não têm recursos suficientes para enfrentar cenários de violência de magnitude tal como os que se veem nas estatísticas brasileiras.

No Lar Santa Mônica, vive-se a cada dia com as marcas de violências passadas, nalguns casos, com muito pouco tempo de história, quase presentes; e, diga-se de passagem, presentes em suas consequências.

Aqui estão as vítimas dessas violências, que lutam todos os dias para deixar para trás essa violência e recuperar sua dignidade, para deixarem de ser vítimas marcadas, com a ajuda de profissionais, e o fazem sem saber, principalmente as menores, que ainda não são conscientes de que o que elas fazem no Lar, a cada dia, é precisamente lutar.

Aqui estão também os profissionais que lidam com diversas violências. Nos programas de assistência social, visita domiciliar e apoio a bairros especialmente desfavorecidos como a Barra do Ceará, onde está o Centro Psicossocial Santo Agostinho, devem percorrer com seus próprios pés alguns desses lugares em que o Estado deixou de ter algum poder há muito tempo, e em que facções diversas dominam toda a vida social. Só com a permissão dos “soldados” dessas facções é que poderiam chegar a essa parte da população mais abandonada.

O Centro Cultural Santo Agostinho, essa parte das instalações do Lar Santa Mônica em que há duas salas de aula, uma biblioteca e um centro de dados, lugar em que as pedagogas e os professores voluntários (entre eles, alguns agostinianos recoletos) dão aulas todos os dias às meninas residentes, é uma poderosa arma contra a violência. Não se vê nem se sente, mas quem aí se educa aprenderá valores e abrirá a mente para ser e sentir-se mais humana, para aprender, a cada jornada, que a empatia ou a solidariedade são o antídoto de qualquer violência.

Essa arma de conhecimento divertido e de diversão que ajuda a aprender tampouco escapou da violência: nas últimas semanas, o Centro sofreu roubos de material informático. Infelizmente, os ladrões não roubam livros para ler.

© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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