- ‘Conseguimos tirá-los de sua rotina de trabalho no campo e fazer-lhes ver que existe gente preocupada com eles’
11-02-2011 Serra Leoa
Gaspar González-Palenzuela, de 21 anos, junto com outros quatro companheiros chegados a Serra Leoa em nome do Departamento de Pastoral da Universidade São Paulo CEU de Madrid, organizou um acampamento de verão entre 16 e 31 de julho com crianças da Pré-escola de Kamabai. Esse foi o seu contato com os missionários, com os projetos financiados em parte com ajuda de Haren Alde e com a realidade de Serra Leoa.

Gaspar González-Palenzuela Gracia nasceu aos 8 de maio de 1989 (21 anos) em Madrid. É o mais velho de quatro irmãos, estuda arquitetura na Universidade São Paulo CEU de Madrid, num campus bem próximo da sede central de Haren Alde. Gosta muito de esportes, principalmente de esqui, futebol, tênis, paddle..., mas também de música e de fotografia, sempre anda cercado de amigos.

A priori, organizar um acampamento de verão para crianças na África pode parecer o que alguém teria qualificado como “arremedo”. Entretanto, os quatro que se lançaram a essa aventura em Kamabai conseguiram que 60 crianças da Pré-escola passassem duas semanas aprendendo, brincando, recebendo carinho e alimentando-se, sem perambular abandonadas pelas ruas nem ter de trabalhar no duro cultivo do amendoim ou do arroz.

Mas, sobretudo, Gaspar recorda aquelas mesmas crianças sentindo-se importantes, reconhecendo que umas pessoas se ocupavam com elas e lhes davam carinho, numa sociedade particularmente hostil com os pequenos, obrigados a trabalhar no campo e não poucas vezes deixados pelas ruas sem que adulto algum cuide deles e os proteja.

O voluntariado não foi novidade para ele. No ano passado, estivera em Burundi com a Associação Solidária Universitária (ASU ONG) e, neste ano, decidiu ir a Serra Leoa com o grupo organizado pelo Departamento de Pastoral da Universidade São Paulo CEU.

Na verdade, não sei qual é a razão principal pela qual comecei a fazer este tipo de voluntariado; simplesmente sentia e gostava de dedicar parte de meus verões a ajudar e a ensinar aos que menos têm. Em parte também porque me mordia a curiosidade de conhecer novos lugares, culturas e, sobretudo, novas pessoas.

Depois dessas duas experiências africanas, pude comprovar a qualidade humana da maioria das pessoas que conheci naqueles lugares, e isso é o que de melhor me levei em ambas as ocasiões, assim como o motivo pelo qual tentarei continuar voltando ano após ano.

Uma experiência a mais? Talvez, antes de partir, poderia ter pensado que aquela seria uma viagem a mais na minha vida, ou que seria um mês como outro qualquer, mas, passado esse tempo, posso afirmar que, sem dúvida, foi uma experiência inesquecível, que marca para a vida toda, que enche como nenhuma outra, que, logicamente, recomendo a todo aquele que tiver a sorte de poder realizá-la porque, como sempre digo aos que me perguntam, este tipo de viagem nos envolve, e muito.

O contato com os Agostinianos Recoletos e sua missão africana representou para Gaspar uma novidade. Realizar seu voluntariado numa Missão de orientação católica colocou-o em contato com realidades como a vida diária dos missionários, as relações inter-religiosas e o respeito por outras crenças.

A vida na Missão é especial, não sei se seria capaz de explicá-la com palavras. É muito mais que o conjunto de atividades realizadas pelos missionários no recinto físico que há em Kamabai, são muitos momentos inesperados, muitas situações diferentes, muitas conversações interessantes, muitas histórias que merecem ser contadas... centenas de coisas que lá são completamente habituais, mas que aqui na Espanha seriam extraordinárias.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção, positivamente, foi o “bom papo” existente entre as comunidades cristãs e muçulmanas. Dá uma verdadeira inveja sã ver como a sociedade em geral não está fragmentada em grupos devido a sua religião e como todos procuram pontos em comum, em vez de acentuar diferenças, para trabalhar conjuntamente pelo desenvolvimento do país.

Surpreende ver como pessoas muçulmanas trabalham dia e noite para o perfeito desenvolvimento da Missão Católica, plenamente conscientes de que o bem que esta faz à comunidade de Kamabai vai muito além da construção de poços ou de escolas, sem reparar em que se trata de uma missão católica.

Graças a suas duas experiências de verão em Burundi e em Serra Leoa, Gaspar reflete sobre a satisfação pessoal que sentiu, sobre o novo valor que pode dar a coisas muito simples de sua vida ordinária, ou sobre as relações humanas que pôde estabelecer em Kamabai.

Sinto-me tremendamente satisfeito com a experiência vivida, foi uma maravilhosa oportunidade de confirmar as sensações que já tive no verão passado em Burundi, e de acrescentar-lhes muitíssimas outras. Reafirmei-me também na convicção de que se todos os que temos a possibilidade de oferecer uma pequena ajuda a quem precisa puséssemos algo de nossa parte, a vida de muitas dessas pessoas seria um pouquinho mais fácil de levar.

Realmente não houve nada que me resultasse excessivamente difícil no processo de adaptação a um lugar tão diferente, em parte porque já conhecia de primeira mão a realidade da África e sabia mais ou menos o que me esperava. Quando você tem a sorte de poder viver uma experiência assim, percebe logo que há centenas de coisas que, no primeiro mundo, se consideram quase como indispensáveis e que, de fato, não o são.

Você aprende a valorizar detalhes tais como abrir uma torneira e que dela saia água, se é água quente então nem se fala, a variada alimentação que temos no nosso primeiro mundo, apertar um interruptor e que se acenda a luz...

Por outro lado, durante a estadia em Kamabai, nós, voluntários, tivemos a oportunidade de conhecer um montão de serra-leoneses com quem se estabeleceram umas relações incríveis. Convivendo diariamente, você pode conhecê-los em profundidade e isso lhe faz entender de uma forma melhor o modo de ser e de agir deles na vida.

Produz-se um intercâmbio entre ambas as culturas que favorece tanto ao voluntário como às pessoas do lugar, já que cada um oferece o próprio ponto de vista, que, na maioria dos casos costuma ser bem diferente. Uma das melhores coisas que você traz na volta para casa é a amizade com algumas das pessoas que conhecemos e que não duvido de voltar a ver nos próximos anos.

Em meu caso particular inclusive antes, já que sou colega de universidade de Yamasa, a aluna de Kamabai que, graças à Missão Católica e a Haren Alde, tem a sorte de estar no CEU de Madrid, estudando Direito.

Estas novas relações são até muito mais estreitas que com boa parte das pessoas com quem se convive diariamente. Na Missão, pude conhecer Medo, Adama, Yamasa, John, Benito... e muitas outras pessoas com que tive a chance de compartilhar momentos e conversações que nunca esquecerei.

Gaspar chegou a Serra Leoa trazido por sua Universidade, depois que se dispôs a particularizar o seu serviço de voluntariado com as crianças de Kamabai a partir da experiência que tinha de Burundi. Foi esse o momento em que entrou em contato com a comunidade religiosa dos Agostinianos Recoletos, aos quais não conhecera previamente na Espanha. Sua impressão da vida, do trabalho, do carisma e da forma de ser dos religiosos oferece-nos um ponto de vista interessante:

Na verdade, levei-me uma impressão muito boa da comunidade dos Agostinianos Recoletos. Até a minha experiência em Serra Leoa, nunca tinha tido relação direta com essa Ordem e somente ouvira falar deles algumas vezes.

Depois de duas semanas de vida na Missão, posso assegurar que o trabalho que realizam é incrível. Acho que eles são um, se não forem o único, dos motores de Kamabai e de centenas de aldeias em redor. Realizam um trabalho digno de louvor e que, sem eles ali, seria impossível levar adiante.

O papel deles é importantíssimo em toda a região. Prova disso é que quando a gente vai pelas aldeias no carro da Missão, todo o mundo corre atrás ao grito de “Father Grandpa” (em referência ao agostiniano recoleto Fr. José Luis Garayoa) ou “Father Manuel” (Fr. Manuel Lipardo).

O povo conhece diretamente os missionários porque são eles mesmos que se relacionam com as pessoas, averiguam suas necessidades, tentam solucioná-las e dão tudo o que têm a seu alcance para facilitar-lhes a vida ao máximo. O fato de que apelidem o Frei José Luis de ‘Grandpa’, que significa “vovô”, já diz muito acerca da relação que o povo tem com ele.

A relação entre a comunidade religiosa e todos os seus colaboradores é excelente. Não importam nacionalidades, religiões, idades, sexos, culturas... Todo mundo trabalha conjuntamente para o desenvolvimento da Missão e de tudo o que esta leva a cabo no distrito de Bombali.

Toda a realidade, e mais se é humana, tem suas fortalezas e debilidades, o que a torna importante e o que se deveria melhorar. Gaspar oferece sua particular opinião sobre o que viu e viveu na Missão Católica de Kamabai:

Não me vejo com a capacidade de opinar acerca de possíveis mudanças que se poderiam efetuar na Missão. Durante minha curta estadia de quinze dias, tive a sensação, em todo o momento, de que a Missão funciona perfeitamente apesar de todos os desafios que surgem no dia-a-dia de Serra Leoa.

Creio que, talvez, fosse conveniente abrir um orçamento de saúde específico para que os missionários pudessem sempre dispor de recursos para a atenção sanitária ao povo de Kamabai. Acho que é uma das coisas que mais lhes custa encontrar, e acabam recortando gastos de outros lugares para poder mandar pessoas carentes aos centros sanitários de Makeni.

A maior fortaleza da Missão Católica são os próprios missionários.  Manuel e José Luis são pessoas que lutam todos os dias para que tudo siga em frente, sem eles seria impossível que frutificasse o que a Missão já realizou no lugar.

São pessoas que, literalmente, dão sua vida pelos demais. Outro dia, sem ir mais longe, um amigo me dizia que o necessário na África é gente disposta a viver lá e dar a vida desinteressadamente, no mesmo instante me lembrei de Manuel e de José Luis.

As pessoas em geral não são capazes de imaginar o enorme trabalho que eles estão fazendo lá, muito mais que a construção de uns poços ou escolas… Tratam dia a dia de mudar a mentalidade do povo, de ensinar outras maneiras de trabalhar, de pensar, de enfrentar a vida. Como se costuma dizer, eles ensinam a pescar em vez de dar-lhes o peixe.

Gaspar se sente comprometido a continuar contribuindo a partir de suas possibilidades com tudo aquilo que faça deste mundo um lugar mais justo e digno para todo ser humano. Esta dedicação aos outros é algo que vale sempre a pena.

Acho sinceramente que vale muito a pena dedicar-se a isto. Obviamente cada pessoa é um mundo e cada situação é diferente, mas em geral parece-me algo que vale a pena. Os possíveis impedimentos para que haja gente que não queira ou não possa dar o passo não penso que sejam tão especiais, são, na verdade, coisas comuns que, de alguma forma, retêm você em seu lugar de origem. Família, namoro, estudos universitários, trabalho estável, problemas de saúde... podem ser alguns dos motivos pelos quais você não possa oferecer uma dedicação indefinida.

Em suma, toda esta experiência e dedicação aos outros me faz mudar uma palavra do ditado “Não é mais rico quem mais tem, mas sim quem de menos necessita”; eu diria que “Não é mais feliz quem mais tem, mas sim quem de menos necessita”.

Durante quinze dias, Gaspar pôde compartilhar seus conhecimentos, seu carinho e sua alegria com 60 crianças da Pré-escola de Kamabai. Ao regressar a casa, levava esses momentos especiais marcados na memória.

De todas as histórias e vivências, eu lembraria um momento que ocorreu no último dia em que fizemos o acampamento. Depois de distribuir algumas camisetas, balões, lápis, cadernos e depois das pertinentes fotos com as crianças e as professoras, nós preparávamos a saída para deixar os pequenos em suas casas nos arredores de Kamabai.

Logo antes de entrar no carro, pude ver a James, um dos pequenos do acampamento, ao lado do veículo, cabisbaixo, mas olhando-nos de esguelha. Aproximei-me dele para ver o que tinha e, ao agachar-me para me colocar à sua altura, comprovei que estava chorando.

Não chorava porque tinha caído nem porque algo lhe doía. Pude ver perfeitamente em seus olhos, pela forma com que me fitava e tentava falar, que era plenamente consciente de que nós íamos embora, de que as duas semanas que passáramos juntos dançando o Waka-Waka, pintando com as mãos, aprendendo números, ensinando-os a lavar as mãos... chegavam ao seu final.

Emocionou-me de maneira especial ver que a minha presença ali, e a dos meus outros companheiros de viagem, tinha mudado em algo a vida do pequeno James, que por insignificante e inútil que o acampamento pudesse parecer, não tinha sido assim, fomos capazes de tirá-los de sua rotina de trabalho no campo por uns dias e de fazer-lhes ver que existe gente que se preocupa com eles.

Espero que algum dia tenham, ele e todos os demais meninos e meninas, a ambição de ajudar os demais para que todos juntos possam fazer de seu país um lugar em que se possa viver nas mesmas condições que em qualquer outro ponto do planeta, isso sem esquecer que, de momento, necessitam de toda  a nossa ajuda.

Gaspar saiu de Serra Leoa agradecendo; ele veio ajudar, mas quer despedir-se não recebendo, mas dando graças à comunidade que o acolheu durante esses dias.

Gostaria de agradecer a possibilidade que os Agostinianos Recoletos, especialmente os membros da Missão Católica de Kamabai, Manuel e José Luis (de algum modo também Rodrigo temporalmente, como voluntário enviado por Haren Alde), nos brindaram acolhendo-nos como autênticos irmãos durante este tempo.

Nós nos sentimos muito bem na Missão e, seguramente, algum de nós repetirá a experiência em futuras ocasiões, esperemos que já sem intermediários, para poder colaborar de primeira mão com a Missão.

Gaspar, depois de sua experiência em Burundi com ASU ONG e desta de Serra Leoa, continuará dando muito de si e animando outros a que deem de suas próprias capacidades e recursos para que a África seja cada vez menos esse continente esquecido.





© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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