- Jon Díez: ‘Em Serra Leoa, os missionários fazem o que Ele disse’
28-02-2011 Kamabai, Serra Leoa
Jon Díez Alcántara (Bilbao, 23 de junho de 1988) passou quase 50 dias na missão dos Agostinianos Recoletos de Kamabai fazendo o que mais sabe e o que mais deseja aprender: curando pessoas. Sua experiência, sua companhia e seu trabalho podem ver-se refletidos em suas próprias palavras: ‘há muito que fazer e são muitos os que podem ajudar’. Haren Alde colabora em vários dos projetos dessa missão que Jon pôde ver com seus próprios olhos.

Durante boa parte do verão do presente ano, Jon Díez Alcántara, de 22 anos, aluno do quinto ano de medicina da Universidade de Navarra, passou um período de suas férias realizando um voluntariado intensivo e proporcionando a muitas pessoas um dos bens mais importantes: a saúde.

Algumas cifras podem dar conta do que significou a estadia dele em Kamabai: no pequeno consultório da missão, realizou 755 consultas médicas; além do mais, atendeu umas trinta de pessoas em lugares como Mile 14, Kayonkro, Kakendema ou Kathekeyan, algumas delas com visitas constantes, dada a gravidade das enfermidades de que estavam acometidas; em cinco ocasiões, precisou atender emergências médicas durante a noite ou mesmo no consultório público (que carece de médico) de Kamabai.

Um trabalho intenso, ao que se deve somar o fato de ter ordenado e preparado o consultório com todos os remédios que ou tinham chegado no contêiner ou tinham sido trazidos por ele mesmo de Bilbao (embora Royal Air Maroc, mais uma vez, quase tenha deixado que se extraviassem no trajeto). Teve tempo ainda para colaborar com a distribuição de material humanitário pelas aldeias ou dedicar-se a muitas atividades da vida cotidiana, até a cozinhar. Em suma, um mês e meio de um trabalho intenso e de um profissionalismo que deixaram marcas na missão.

Sou o segundo de três irmãos. Estudo medicina na Universidade de Navarra, embora quando criança quisesse ser jóquei, pois gosto muito de equitação. Também sou fã de música e de pintura

A solidariedade é um dos valores a que dou mais importância. Faço parte da ONGd “Defende o seu futuro”, radicada na Universidade de Navarra, que luta contra a exploração sexual comercial de meninas e adolescentes no Camboja e na Tailândia. Com esta ONG, preparei diversas campanhas de captação de recursos em Pamplona. Além disso, juntando o lazer com a solidariedade, em 2008 realizei um serviço voluntário na Turquia cujo objetivo era habilitar uma área de lazer e de educação ambiental que permitisse às pessoas valorizar e cultivar um maior contato com a natureza.

Minha vinda a Serra Leoa foi fruto de uma série de casualidades. Na Universidade, apareceram diversos cartazes propondo um voluntariado em Serra Leoa. O país chamou a minha atenção, mas não me inclinei a ir com todo um grupo de colegas da Universidade, pois sentia que poderia fazer muito menos. Através de uma amiga, soube que os Agostinianos Recoletos tinham também uma missão no país e aceitavam voluntários, foi então que entrei em contato com eles e vim parar aqui.

A chegada de Jon a Kamabai não foi fruto só da casualidade. Sua chegada física foi fruto até da boa sorte. Por diversas circunstâncias, Jon quase perdeu o voo de conexão de Casablanca a Freetown. Correndo pelo aeroporto marroquino e furando até as filas nos guichês aduaneiros e de imigração, conseguiu por fim chegar ao avião; não chegaram, porém, as suas malas. Por questão de minutos não perdeu a conexão, e ressalte-se que não levava consigo nem o número de telefone nem o endereço dos Recoletos em Kamabai. No final, tudo acabou bem. Depois de uma longa viagem com não poucas paradas (Bilbao, Madrid, Casablanca, Lungi, Kamabai) e poucas horas dormidas, chegava à missão.

Impressionou-me a precária infraestrutura existente no país. Quando estive a ponto de perder o voo de conexão em Casablanca, pensava comigo: “não importa, quando chegar procuro um ônibus ou um táxi com destino a Kamabai, ou um hotel para passar a noite (o avião chegava às duas da madrugada!) e, no dia seguinte, tento entrar em contato com os missionários”. Quando vi como era o país, entendi que isso teria sido impossível: no aeroporto internacional de Lungi, há pouco mais que uma pista de aterrissagem: nem hotéis, nem ônibus, nem conexões com o restante do país, nem táxis normais como em qualquer outra parte do mundo.

Uma vez chegado à missão, deparei-me com uma vida bem simples, num lugar muito pobre em que o povo não dispõe de energia elétrica nem de água potável nas casas. Os missionários têm uma vida de certo modo tranquila (já que o país está em paz) e contam com meios que lhes facilitam a vida (luz, água, transportes, comida), mas os vejo carregados de muitas responsabilidades: educação, saúde, pastoral, obras sociais…

Serra Leoa não é um país usual. Nem sequer no interior de sua própria área de influência. Os serra-leoneses têm, no West Africa (a sub-região africana onde se situa o seu território), a fama de pessoas não confiáveis, com as quais não se pode fazer negócios ou contratos, acostumadas a uma corrupção desmesurada. Jon notou também as peculiares características sociais do país.

Chamou-me muito a atenção a alegria das pessoas, mesmo nas condições reais em que elas vivem, a infância solta e livre, uma vida distraída, mas por causa da mínima atenção que as crianças recebem dos adultos; também reparei no racismo existente no próprio país, a sobrevalorização do ‘branco’ como pessoa que sempre tem dinheiro e da qual sempre se pode tirar alguma coisa, na insolidariedade das pessoas na hora de se ajudarem uns aos outros…

Também percebi o valor da vida e da morte, da própria enfermidade. Pessoas que não correm ao médico mesmo quando têm problemas graves; desinteresse pelo próprio cuidado, muitas vezes por ignorância; ou a aceitação da morte como algo natural, comum, que não causa grandes traumas a ninguém nem constitui um fato marcante na vida de ninguém. Para mim, sobretudo na hora de me deparar com certos casos ao dar consulta, isso foi chocante.

Por exemplo, estando em Kathekeyan para ver um dos professores que tinha um problema numa perna, avisaram-me que havia outra persona no povoado com os ossos quebrados. Era o fêmur. Perguntei quanto tempo fazia que o quebrara e responderam com tranquilidade: “quatro meses”. Quase me indignei: “Quatro meses com o fêmur quebrado e ninguém fez nada?”. Claro que eu também não pude fazer nada, pois depois de tanto tempo, teria de fraturar tudo de novo para colocá-lo no lugar certo.

Outra coisa que me chamou bastante a atenção é a crença cega e firme nos mitos, na superstição religiosa e nos supostos poderes especiais que outorgam às sociedades secretas, às bruxas ou aos chamados ‘supernatural man’. As pessoas são facilmente enganadas em muitos aspectos, e suas mentes analfabetas fazem que o medo ou a culpa se convertam em forças catalisadoras da sociedade.

Quanto às relações humanas, cheguei à conclusão de que quase sempre são relações interesseiras. Por trás de todo sorriso ou cumprimento, costuma haver um pedido. É muito difícil estabelecer relações sinceras a partir do afeto ou da simpatia, pois palavras como “amizade” ou até mesmo “amor” parecem não significar aqui o que significam noutras partes do mundo.

Jon mostrou em todo momento uma profunda qualidade humana e profissional. Consciente de ser ainda um estudante, pôs todo seu empenho para curar as pessoas que pôde ou para transferir a centros hospitalares de Makeni as que necessitavam de uma atenção mais concreta. Todas as tardes e noites, estudava os casos vistos pela manhã e se informava de quanto necessitava na hora de administrar tratamentos.

Sinto-me satisfeito com a experiência porque me senti útil. A recompensa que guardo ao voltar à Espanha para continuar a minha vida diária é saber que muitas das pessoas que atendi, sem a minha presença, jamais teriam sido atendidas por nenhum profissional de saúde. Mais ainda, sei que teriam acudido àquele mundo obscuro da bruxaria e da superstição para, em muitos casos, piorar seu estado de saúde e perder o pouco dinheiro que têm.

Mas o sabor é agridoce. Também senti momentos de insatisfação ao ver que muitas pessoas não modificaram em nada seus hábitos higiênicos, sua prevenção na saúde, seu modo de ver a medicina, ou sua atenção e interesse pelas crianças mais vulneráveis e mais esquecidas; impossível é fazer-lhes ver a necessidade de adquirir hábitos simples e muito benéficos como ferver a água, lavar as feridas quando ainda são pequenas e recentes com água e sabão para não deixar que se infeccionem, dar importância à higiene pessoal.

Há também alguns comportamentos que me deixaram um pouco mais triste, muitos deles enraizados na cultura popular. Não há meios de fazer-lhes ver que a solidariedade é boa para todos, que não devem ser exigentes como se tivessem direito a tudo em troca de nada, que devem procurar seu bem-estar numa atitude responsável.

Num lugar como Serra Leoa, mais cedo ou mais tarde, chega também a dificuldade, a desolação, a desconfiança, a dúvida sobre se você está fazendo algo que realmente valha a pena. É um sentimento que se repete em todas as pessoas que vêm a este país para tentar melhorar as coisas. Jon não foi exceção.

Em meu processo de adaptação, recém-chegado de terminar o ano letivo em Pamplona e caindo numa realidade como a de Serra Leoa, e dentro de Serra Leoa numa de suas regiões mais pobres, encontrei-me com a impossibilidade de ter todos os meios, de completar as coisas como teria gostado. Tive de aceitar não poucas vezes que não podia fazer mais, nem podia pagar a todas as pessoas os seus tratamentos médicos especializados, mesmo que em algum lugar de Serra Leoa tivessem podido oferecê-los.

Jon não trabalhou sozinho. Em primeiro lugar, porque em todo momento acompanhou e foi acompanhado pela comunidade religiosa agostiniana recoleta de Kamabai. Os dois religiosos, Fr. Manuel Lipardo e Fr. José Luis Garayoa, proporcionaram a Jon um espaço para morar, trabalhar e descansar a seu gosto.

Além disso, ele coincidiu com outros voluntários, em diversos momentos e em convívios de diferentes durações: o cooperador expatriado de Haren Alde que se encontra em Kamabai em virtude do projeto Pikines II da Comunidade de Madrid; quatro universitários que chegaram com o grupo de Pastoral da Universidade São Paulo CEU de Madrid para realizar atividades lúdico-formativas com as crianças da Escola Infantil de Kamabai; três voluntários procedentes de Valladolid do Centro Oral e Maxilofacial Buccal; teve oportunidade em três fins de semana de estar com seus companheiros da Universidade de Navarra, com todos os do grupo de Pastoral da Universidade São Paulo CEU de Madrid e com os voluntários recém-chegados da Itália para ajudar as Clarissas em Lunsar. Todos estes grupos visitaram Kamabai e Jon lhes ofereceu sua ajuda, companhia e proximidade; e, finalmente, pôde trabalhar lado a lado com um enfermeiro também chegado de Valladolid para passar um mês oferecendo seus serviços de saúde aos habitantes de Kamabai.

Por último, Jon conviveu com os trabalhadores da Missão, que o ajudaram com as traduções a krio, limba ou mandingo, com a limpeza e arrumação do consultório ou com a companhia nos momentos de lazer.

Pude manter uma relação muito próxima com todos os voluntários e trabalhadores da missão. Pareceram-me pessoas responsáveis e com uma grande vontade para melhorar as coisas, cada um conforme suas possibilidades e capacidades.

A comunidade de Agostinianos Recoletos pareceu-me uma comunidade no pleno sentido da palavra. É certo que eu não tenho muita experiência sobre como é ou como deve ser uma vida em comunidade, mas Manuel e José Luis me acolheram de uma maneira que fez com que me sentisse em minha própria casa, quase com direito a tudo. Não me senti limitado em momento algum ao realizar o meu trabalho, e inclusive encontrei neles uma espécie de “paternalismo” no bom sentido, pois em todo momento queriam evitar problemas para mim, valendo-se do conhecimento e da experiência que possuem desta realidade.

Os religiosos sabem bem como é a realidade em que vivem, têm os pés no chão, e acho que sabem que não têm muitas mais opções de trabalho além do que já fazem. Inclusive quando precisam impor seu ponto de vista às pessoas que os visitam ou às que alcançam suas ajudas, por exemplo, sabendo de antemão que elas não os entenderão de jeito nenhum.

Quanto à gestão de seu trabalho, às vezes, eu os vi como líderes de um projeto de futuro, de uma empresa que sabem que devem realizar. Poderão equivocar-se mais ou menos, mas sabem chegar a tudo e, senão, procuram a melhor maneira de obtê-lo.

Não mudaria muitas coisas na missão. Creio que tudo o que se puder criticar é fácil fazê-lo de fora desta realidade; mas quando você está imerso nela, é difícil pensar que as coisas possam fazer-se de outro jeito. Por exemplo, eu mesmo vejo que não há uma necessidade imperiosa de pastoral, dada a porcentagem de católicos existentes e a própria visão da religião que as pessoas têm aqui. Entendo que eles sejam também os que dirigem não só uma paróquia católica, mas, sobretudo, um projeto de desenvolvimento, cultura, educação, modificação de valores e atitudes que talvez sejam prévios aos propriamente religiosos.

Quanto a mim, deparei-me com um lugar preparado para realizar um trabalho de qualidade na área da saúde (embora o projeto de uma clínica que já se tem e se espera começar em breve melhoraria ainda mais as coisas); mas, além disso, há tudo o que se faz necessário para você ter seu ambiente privado, seu descanso, seu lazer, a comida, as comunicações… Nem mudaria nada nem acho que poderia queixar-me de nada nesse sentido.






© HAREN ALDE - A favor dos demais. ONG'D agostiniana recoleta. General Dávila, 5, bajo D. 28003 - Madrid, Espanha. Telefono e fax: 915 333 959. NIF: G-31422793. Inscrita no Registro Nacional de Associações com o número 115.324. Declarada de Utilidade Pública o 17 de Julio de 2000.
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